Ordenação ao pastorado?

INTERROGAÇÃORecentemente ouvi um pastor amigo contar um caso interessante, de uma cantora evangélica que foi ordenada ao pastorado. A resposta que ela deu quando perguntada sobre sua consagração a pastora, considerei inusitada, mas sua fala reflete uma grande parcela das pessoas hoje que são levadas ao pastorado, ou melhor, à ordenação. Ela teria dito que o fato de agora ser pastora estava lhe permitindo ter acesso a lugares que antes ela não podia ter! Perceba como as pessoas hoje almejam uma ordenação ao pastorado não pelo senso de serviço ao Reino de Deus, com vistas a cuidar de pessoas de fato, mas por motivações que giram mais em torno de seus próprios interesses. Particularmente, considero uma verdadeira crise na Igreja Brasileira o fato de pregadores itinerantes e cantores que não pastoreiam, não tem igreja para pastorear e que não atuam nem como pastores auxiliares, serem ordenados ao pastorado mais por questões de status e “abertura” do que pelo sentido exato do que é ser pastor. Como diziam os pastores antigos, pastores de verdade, “pastor tem cheiro de ovelha”, e tem cheiro de ovelha por conviver com elas, por se interessar por elas, por gastar e se deixar gastar por suas almas. Quando convidado à ordenação pastoral, eu rejeitei por entender que não era ainda o momento, que minhas prioridades naquela fase de minha vida não me permitiriam estar à frente de uma igreja e, acima de tudo, por eu não querer ser pastor só no título, mas na função!

Em Cristo,
Prof. Roney Ricardo Cozzer

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Conselhos…

Na minha caminhada, ao longo dos anos, recebi e tenho recebido bons conselhos, e quero aqui compartilhar com vocês, especialmente com os mais jovens. E já digo de partida que NÃO acredito no adágio popular que afirma que “Se conselho fosse bom ninguém dava, vendia!”. Bem, isso é mentira. Nem tudo que é gratuito é, necessariamente, ruim. Conselhos são um bom exemplo disso, pois por vezes tem origem em pessoas boas e que desejam o nosso bem. Abaixo, compartilho alguns que recebi desde a adolescência e que ainda guardo comigo:
Há muitos anos, ouvi de um conhecido, enquanto o ajudava numa mudança, que sempre ao sair de uma empresa, devemos nos esforçar para sair deixando sempre a porta aberta. Louvo ao Senhor pois sempre saí pela porta da frente nos lugares onde trabalhei. A vida dá voltas. Por vezes precisamos voltar à fonte onde antes bebíamos água.
De outro conhecido, ouvi que no ambiente de trabalho eu deveria sempre me aproximar dos melhores funcionários, geralmente os de mais idade, e procurar sempre aprender com eles. Esse também foi um ótimo conselho que muito me ajudou e ainda ajuda, pois, via de regra, trabalho com pessoas mais velhas que eu.
Da minha mãe ouvi várias vezes: “Meu filho, jamais diga que nunca fará isso ou aquilo. Pedro disse que não negaria Jesus e, no entanto, o fez por três vezes”. Havia grande discernimento na fala dela. Com efeito, a vida me mostrou que por vezes tropeçamos e estamos sujeitos e errar. Isso foi para mim, inclusive, um conselho que me levou, ao longo da vida, a refletir sobre a misericórdia para com aqueles que pecam.
Da minha mãe ainda ouvi diversas vezes: “Meu filho, não seja salgado demais. Todo crente salgado demais, quando comete um pecado, sente-se incapaz de continuar sendo crente e acaba abandonando a fé”. Ela tinha razão! Por trás de um radical que se posiciona como detentor da verdade e da santidade, se esconde, por vezes, um grande pecador e intolerante para com o próximo. É como aprendemos na Psicanálise: as pessoas por vezes criticam os outros para esconder seus próprios erros e recalques.
De um pastor, um grande amigo, ouvi que um ministro de Cristo é um servo, e isso apenas. Eu ainda era adolescente quando escutei estas palavras, mas elas ainda ecoam em meus ouvidos. Ele me dizia com uma propriedade que não consigo esquecer, que o ministro é o “servo inferior”, “o remador inferior”, mas que a Igreja estava mudando isso e passando a encarar o ministro como alguém superior, acima dos outros.
E claro, eu poderia citar diversos outros conselhos importantes, mas termino com um que foi decisivo para minha formação: amar e obedecer aos princípios da Palavra de Deus. Ela sim é fonte inesgotável de conselhos profundos e que tocam nossa realidade, hoje.
Deus o abençoe!

Sociedade adoecida

Eu, robô

É notável o crescimento do interesse das pessoas pelos serviços de profissionais da Psicologia e da Psicanálise. Percebe-se que hoje há uma abertura maior, inclusive nas camadas mais pobres da sociedade, para este tipo de ajuda especializada. A atração pelo divã está na mente de gente que, anos atrás, jamais aceitaria abrir seu arquivo pessoal, íntimo, para um estranho, ainda que fosse alguém treinado para lidar com isso, no caso um psicólogo ou psicanalista. Até mesmo na Igreja essa resistência vem diminuindo. Mas curiosamente – assim percebo – nossas “engrenagens” sociais são cada vez mais adoecedoras. E talvez por isso mesmo estas profissões se tornem cada vez mais relevantes.

Esse adoecimento pode ser percebido nos fatores alistados a seguir e que, embora não sejam aqui apresentados como dados estatísticos, podem ser observados na convivência diária entre as pessoas.

1. Mecanismo de defesa excessivamente armado.

Algumas pessoas, visando preservar sua própria integridade, respondem até ao que não lhes foi perguntado. E o fazem por que presumem sempre o pior das pessoas. Deliberam e tiram conclusões de coisas que nem aconteceram ainda. E por mais que seja verdade que por vezes pessoas nos decepcionam, ainda sim é preciso acreditar. Ouça! Dê uma chance. A linguagem, como escreveu alguém, é uma fonte de mal entendidos. Considere a possibilidade de não ter compreendido bem o que tencionaram lhe dizer e caminhe a segunda milha, como ensinou o Mestre. No fundo, esse mecanismo de defesa psicológica muitas vezes nada mais é do que o reflexo de uma personalidade egoísta que busca autoafirmar-se.

2. Utilitarismo nas relações.

Ocorre quando as pessoas mediam suas relações visando extrair algum benefício do outro. Quando um objeto não nos é mais útil, o descartamos. Simples assim. Mas este modus operandi foi transferido para as nossas relações. Desfazemo-nos de pessoas como se descarta coisas. E isso acontece, inclusive, na Igreja. É só olhar ao lado e ver aquela pessoa que se divorciou, que cometeu algum pecado, que discordou da liderança, que foi achado faltoso nalguma questão… note como nós as colocamos na “periferia”. Temos muita dificuldade para aceitar o fato de que conviver com alguém que pecou ou errou pode ser uma forma de ajudá-la a se reerguer. Não é boicotando – como costumeiramente fazemos – que estaremos estendendo à elas o amor restaurador de Deus em Cristo. Lembremo-nos de que “o filho do trovão” se converterá no “apóstolo do amor”, o truculento Pedro, pronto a sacar a espada, no solícito pastor que escreve aos “amados” e o “touro selvagem” Saulo naquele que levaria em seu próprio corpo as marcas por causa do Evangelho de Cristo. A lógica do Evangelho é oposta à lógica do utilitarismo social que presenciamos hoje: se investe numa pessoa pelo que ela virá a ser e não pelo que ela pode ofertar no agora. Pensemos nisso…

3. Polidez “diplomática”.

Sim! Aqui está um inimigo poderoso. Ele é super eficaz para esconder o homem ou a mulher por trás das palavras bem colocadas e das reações corporais bem treinadas. Um amigo dia desses me disse algo curioso: comentou que alguém lhe aconselhou a fazer teatro para poder lidar melhor com as pessoas. Chegamos mesmo neste ponto? Convivemos com pessoas ou com autômatos? Marcará a Pós-Modernidade o fim da poesia? Pois a poesia revela almas, desnuda sentimentos, conecta corações e revela intenções. Nosso tempo, contudo, parece ter ojeriza à isso. Parece que essa tendência nos levou a rejeitar as pessoas como elas são de fato, já que convivemos apenas com estereótipos. Essa “estrutura” que as pessoas colocam sobre si mesmas todos os dias para sair de casa nem sempre é fácil de ser sustentada e mais cedo ou mais tarde, o homem ou a mulher por baixo dela virá à tona. E quando isso acontece, o choque se estabelece, pois se perceberá quem se é de fato. Relações verdadeiras são marcadas por transparência, cumplicidade, conflitos, compartilhamento, lágrimas, saudades, o reconhecimento de qualidades e de imperfeições. Utópico? Não! Ainda há pessoas que decidiram não se encaixar nesta “formatação”. Essa polidez “diplomática” chegou também no ambiente cristão. Não aceitamos que um homem de Deus e que uma mulher de Deus sejam um homem e uma mulher. Todos podem pecar, menos eles. Todos podem chorar, menos eles. Todos podem se irar, menos eles. Todos podem ter que lidar com impulsos, menos eles. Todos podem sangrar, menos eles. “É preciso manter o status quo”, dizem. Particularmente, defendo uma “Teologia pé no chão”. Eu, você e todos nós sabemos que isso simplesmente não funciona na prática. É muito belo até o discurso, mas os “brutos também amam”, Superman tem a kriptonita e todos sem exceção lidamos com algum tipo de limitação.

Essas e outras características delineiam a nossa sociedade, infelizmente. Uma sociedade que está doente e que de alguma forma nos adoece também, já que estamos inseridos nela. Todavia, precisamos ter coragem de ir na contramão dessas tendências. Podemos ser levados por essa “onda” ou decidir fazer a diferença por meio de hábitos e convicções que, embora contrários ao espírito de uma época, são libertadores. Essas convicções nos permitem ser pessoas livres dessas amarras tão doentias e pesadas. A convicção de que é necessário amar a Deus, ao próximo e ajudar de forma desinteressada. A convicção de que as pessoas podem errar, mas que podem ser curadas e restauradas. A convicção de que podemos sim nos relacionar com o outro de forma sincera e franca, visando o bem comum. Fazendo assim, certamente caminharemos como uma sociedade mais saudável. Por mais que toda ajuda profissional seja muito bem vinda, creio que voltar à uma vida simples, desprovida de tantas “armas” e mecanismos de defesa (e de ataque também!), continua sendo um caminho para sermos pessoas mais felizes e saudáveis emocionalmente.

Roney Ricardo Cozzer

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