Anúncios

Aprendendo com a caminhada…

Prezados(as), depois de tantos anos de caminhada no Evangelho, como alguém sempre muito ativo no seio de uma igreja local, estou vivendo algo novo e diria até “inesperado” para mim mesmo. Naturalmente, este momento reflete, de certo modo, um processo que já dura anos.
Residindo em um estado novo, longe do meu reduto onde vivi 20 anos e desenvolvi tantas atividades ministeriais, estou experimentando uma realidade que eu diria ser inédita para mim: Vim morar numa cidade nova, com minha família, onde não conhecíamos ninguém e eu assumi uma função que tem exigido muito de mim, onde minha vida tem se limitado, basicamente, às minhas funções na faculdade e às minhas atividades literárias, mas nada numa igreja local. O inédito a que me refiro aqui é o não estar desenvolvendo alguma atividade eclesial. Meu novo trabalho tem sido um desafio delicioso, para dizer a verdade, embora bem desgastante, e que me tem propiciado um grande crescimento profissional, mas quanto a atividades ministeriais, estou experimentando uma redução de quase 100%.
Aqui, não me vinculei (e nem pretendo) me vincular a uma igreja local. Isto me provoca dores, confesso, pois para alguém que sempre desenvolveu algum trabalho eclesial, é realmente desafiador dedicar-se apenas a uma atividade secular… Mantenho meu vínculo com minha querida igreja em Porto de Santana, onde encontrei um pastor amigo e pessoas amigas. Continuo como presbítero ordenado vinculado àquela igreja.
Naturalmente, residindo em outro estado, na melhor das hipóteses, vou poder participar de algum culto em minha igreja uma vez ao mês. Aqui, onde estou morando atualmente, já visitei uma igreja, pretendo visitar outra, mas como escrevi acima, não pretendo me vincular.
Esta situação nova para mim, esse “desligamento parcial” de uma vida eclesial tão ativa, tem provocado em mim sensações variadas que quero compartilhar com você que me lê.
Começo mencionando o fato de que estou vendo, na prática, que o Senhor não nos desampara, e que seu amor não se restringe a um ambiente eclesial específico como tantas vezes fui tentado a pensar. Deus não é um private do momento do culto ou de alguma denominação em particular. A gente cresce num contexto religioso muitas vezes tão fechado e ensimesmado que chegamos mesmo a pensar que só podemos encontrar Deus nos bancos do templo… É realmente reconfortante saber que Ele está conosco a despeito de uma desaceleração das atividades ministeriais. Mas embora tenha esta convicção, há outra sensação que provoca dor em meu coração: Sinto falta daquela convivência tão salutar com os irmãos, aquela convivência pura, sincera e marcada por verdadeira fraternidade cristã. Sinto falta de ver minha filhinha mais envolvida com as atividades da igreja local, o que muito ajuda na educação de nossos filhos, convenhamos. Por não termos veículo e por aqui tudo ser um pouco distante, este afastamento acaba aumentando um pouco.
Mas noutra mão, preciso admitir, sendo bem honesto, tenho experimentado uma sensação que me parece, eu diria, libertadora: É a sensação de não estar sendo vigiado, de não estar na companhia de pessoas que lhe lançam aquele “olhar raio-x” porque você está de barba, que lhe condenam porque você postou uma foto de bermuda no Facebook, dentre outras práticas que considero medievais, mas que são comuns em nosso meio cristão e com as quais convivo durante décadas.
Infelizmente, o movimento evangélico no Brasil distanciou-se muito do Evangelho de Cristo. Durante todos esses anos eu vi muita coisa sedimentar em nosso contexto que nos adoeceram muito: Vi muito utilitarismo nas relações, despotismo na liderança cristã, muita religiosidade tosca e desprovida de sentido, muita gritaria e histerismo, pessoas sendo humilhadas e constrangidas em público em nome da “disciplina cristã”, vi amizades longas acabarem porque uma das pessoas desanimou na fé e por isto mesmo foi abandonada, vi crentes vociferarem sobre o pecado dos outros condenando-os ao Inferno sem qualquer sentimento cristão pelo outro e a lista prossegue.
Vi igrejas e pastores fecharem portas para bons ensinadores da Palavra apenas por discordarem de pontos de vista teológicos, mas cederem seus púlpitos para políticos corruptos e à homens execráveis, grosseiros e estúpidos que se apresentam como “pregadores” e ainda pagarem para ouvi-los.
Eu vi gente vir a mim e pedir perdão pelo mau que me fizera, mas não porque se arrependera de fato ou por me amar, mas porque a religião determina que seja assim… É preciso cumprir o protocolo, apenas isto. Gente que não entendeu o significado do Evangelho de Cristo e do amor ao próximo.
Vi lideranças evangélicas empurrarem para “debaixo do tapete” todo tipo de sujeira em nome de não difamar a Igreja, quando na verdade estavam contribuindo para destruir ainda mais nossa imagem diante da sociedade. Uma instituição séria e íntegra age com lisura e transparência e não espanca jornalistas e compra periódicos para abafar os erros de seus líderes, algo visto em contextos eclesiais até com certa frequência.
Vi crentes dizerem a outros crentes para não desanimarem na fé apesar de todos os problemas da igreja local, jogando sempre a culpa no Diabo por problemas que são nossos, não dele. O ambiente evangélico se tornou tão hostil e adoecedor assim nos últimos anos não foi por culpa do Diabo, mas nossa! Nós é que nos tornamos péssimos em nossas relações eclesiais e transferimos nossa responsabilidade.
Não! Não sou um ressentido ou alguém que esteja magoado com a Igreja. Pelo contrário. Tenho estado em paz com Deus. Quando oro, sinto logo Sua presença e tenho visto seu cuidado sobre mim e sobre minha família. Mas isto não significa necessariamente que eu deva me conduzir ignorando todos esses problemas em nome de “não escandalizar os outros”. Prefiro abordar nossos problemas de forma honesta e sincera e confesso – de novo! – que a sensação de estar de certo modo distante disso tudo, é libertadora. Dias atrás, conversando com um grande amigo e também um grande homem de Deus, alguém que como eu dedicou nada menos que uma vida à Igreja, ouvi dele a seguinte expressão: “Estou com nojo de igreja!” Anos atrás, ao ouvir uma frase como esta, meu “arsenal ortodoxo-apologético” já ficaria a postos. Hoje, depois de tantas marcas do passado, e de encontros e reencontros com Cristo, minha solidariedade se estende a quem diz isto e procuro ouvir mais que falar… Ou nos refazemos como Igreja ou perderemos totalmente nossa relevância, perdendo de vista nossa missão. As pessoas estão se afastando cada vez mais do ambiente eclesial e fazem bem em fazê-lo, já que ele cada vez mais perde sua finalidade terapêutico-espiritual para se tornar um ambiente que adoce, onde o amor é utilitário, onde pessoas não fazem falta, onde o dinheiro é o deus e onde pastores consolidam seus impérios… Particularmente, prossigo! Continuarei orando, confiando nele e buscando direção, mas consciente de que Ele me deu pés para caminhar e discernimento para não sair da estrada. Um desigrejado? Certamente não, mas repensando muita coisa sim. Uma pertença institucional mais flexível? Sim, creio que esta é uma definição adequada para mim neste momento. E nesta pertença institucional mais flexível quero permanecer enquanto isto for possível. Se não me aceitarem nesta condição e decidirem me por para fora, fechar as portas e me renegarem ao status de herege, que o seja! O verdadeiro Cristianismo não é imposição ou seguimento cego e irrefletido. Conscientemente, eu jamais me submeteria a esse tipo de religião.
 
Roney Cozzer
Apenas um escritor que não deu certo aventurando-se em um novo livro…
Anúncios

Confissões de um pentecostal…

LENDO LIVRO DE ATAS DA DÉCADA DE 1980 E INÍCIO DA DÉCADA DE 1990

Costumo dizer que sou pentecostal há 34 anos (minha idade atualmente), já que fui criado como filho adotivo por uma família de orientação pentecostal. Só tive duas denominações em toda a minha história: comecei na Igreja Missionária Caminho do Céu e em seis de janeiro de 2001 me vinculei à Assembleia de Deus.
Confesso que como pentecostal presenciei o eclodir de uma religião viva, dinâmica e que me apresentou um Jesus real, que “tem boca e fala”, bem diferente daquele Jesus moribundo retratado nos quadros que ficavam pendurados nas paredes de muitas casas. Sempre cantávamos: “Não creio, não creio num Cristo vencido…”. Esse Jesus, que me foi apresentado pelo Pentecostalismo, é o “meu Jesus”. Ele não é um nome perdido nas folhas da História ou unicamente aquele Jesus mencionado pelo exegeta: “[…] um judeu de pé sujo de terra, cabelo desgrenhado, feio provavelmente…” (Fala pronunciada pelo exegeta Osvaldo Luiz Ribeiro no Painel Jesus sob Pressão. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=BNDVDqcPZ3o>. Acesso em: 16 jul. 2014). Por mais que esta assertiva seja verdadeira, um pentecostal jamais se contentaria com ela apenas. Ele também é vivo, é poderoso, é o Filho de Deus que deu sua vida para nos salvar.
Confesso que no Pentecostalismo vi pessoas simples que com pouca força fizeram grandes coisas. Gente como a gente, com problemas pessoais, com fraquezas, limitações, mas com coração sincero e aberto a uma causa maior do que elas mesmas. Vi homens e mulheres iletrados abrirem a Bíblia e pregá-la com profundidade, de maneira tocante e convincente. Vi pessoas terem suas vidas transformadas ouvindo pregadores e pregadoras assim. E aí está algo que me toca profundamente: a mudança operada pelo evangelho na vida das pessoas. Como é difícil mudar um ser humano! Mas pelos corredores de igrejas pentecostais, isto aconteceu incontáveis vezes.
Confesso que como pentecostal ouvi Deus falar! Sim, isto mesmo. Para alguns filósofos, historiadores, psicólogos e até mesmo teólogos, afirmar que “Deus falou” com alguém beira à insanidade mental. Há quem costume brincar dizendo que falar com Deus é normal, ouvir Deus falar, contudo, indica problema psicológico. Brincadeiras à parte, se há algo que é claro e firme para um pentecostal genuíno, é que Deus fala com a Igreja hoje, e fala com ele de modo particular. Deus fala através de visões, através de sonhos, através de sinais do cotidiano, através de palavras proféticas. É comum entre nós a expressão “Deus me mostrou” ou “Deus falou comigo”. Isto para nós é algo natural, que não nos causa estranheza.
Enquanto escrevo este livro, estou residindo no Rio de Janeiro. Mudei-me para este estado para trabalhar numa faculdade no município de Araruama. Antes de vir para cá, algumas semanas apenas antes de mudar, recebi um pastor em minha casa. Um amigo. Quando ele estava para sair, pedi que orasse e quando ele concluiu, disse que me via num campo verdejante, acompanhado de um varão de branco, e na visão, eu estava muito feliz. Em seguida, ele prosseguiu dizendo que Deus o fazia entender que Ele estava “levantando” um homem de fora do meu contexto, que “estenderia a mão para me ajudar” e que eu não mais permaneceria no estado do Espírito Santo, mas seria levado a outro lugar. Quando isto aconteceu, meu Diretor Acadêmico já havia sinalizado para mim a proposta de mudança. Esse pastor, meu amigo, nada sabia a respeito. Como explicar algo assim se não pelo fato de que Um Ser Divino conduzia minha história? O curioso é que meu Diretor Acadêmico é um homem que conheço há menos de um ano, não é evangélico e foi quem oportunizou minha inserção aqui na faculdade. Para um pentecostal, fatos assim não só são perfeitamente possíveis, como são até normais.
Mas nem tudo são flores no Pentecostalismo. Nosso querido Movimento Pentecostal vem enfrentando problemas sérios, idiossincráticos é verdade, mas enfrenta também problemas que são reflexos do que está acontecendo com o movimento evangélico brasileiro de um modo geral. E isto de certo modo evidencia o quão evangélico ele é, ainda que alguns cristãos reformados insistam que ele é um movimento anticristão.
Vi o Pentecostalismo tornar-se “pesado” e difícil de ser suportado em seu aspecto institucional. Excesso de formalidade, obsessão por títulos eclesiásticos, culto pomposo e pregações carregadas de autoafirmação vêm marcando nossa trajetória nesse início de século. Nossa querida Assembleia de Deus insiste num modelo de liderança falido: o líder centralizando tudo em torno de si. Em nossas reuniões de obreiros, só se ouve a voz do Pastor-presidente e quando muito, a de alguém designado por ele para falar.
Como pentecostal, vi levantar-se uma geração de jovens pentecostais idiotizados e “redondamente” enganados a respeito do Evangelho. Quando eu era jovem, minha motivação era Cristo, era amá-lo, era anunciá-lo ao mundo e servi-lo. Vi, contudo, levantar-se uma geração de jovens pregadores pentecostais que passaram a encarar o púlpito pentecostal como espaço para a sua autopromoção. Seu interesse na pregação estava (e está) mais para a fama, para o dinheiro e para as viagens do que para anunciar Jesus às pessoas. Vi essa geração inspirar-se em pregadores pentecostais famosos, mas sem qualquer cultura bíblica, teológica e secular. Tive sorte! Cresci lendo teólogos pentecostais competentes e por mais que hoje possa até divergir de alguns de seus pressupostos teológicos, ainda assim me mantenho grato pois deles fui impulsionado a progredir na leitura, no aprendizado, no conhecimento da Bíblia e da Teologia.
Como obreiro pentecostal fui forjado para o trabalho, para a Seara do Mestre. Venho de uma safra de obreiros pentecostais gerados para servirem a Deus, à Igreja e ao próximo. Hoje, ser pastor tornou-se uma moda. Todo mundo é pastor e todo mundo se acha apto para ser pastor. Já reparou isto? Pregadores itinerantes que sequer prestam frequência em suas igrejas locais são levados ao pastorado para terem “maior abertura” nas igrejas. E isto sob o endosso de Pastores-presidentes e convenções assembleianas. Posiciono-me radicalmente contra esta tendência. Pastorado é cuidado, é amor ao próximo, é abnegação, é entrega. Não sou pastor, mas tive pastores de verdade e tenho pastor hoje. A meu ver, o que está acontecendo no Brasil é um desvio do verdadeiro sentido da vocação pastoral…
Como pentecostal, confesso, vi o culto pentecostal perder sua essência. A forçação de barra é tanta que presenciamos em cultos as pessoas buscarem dirigir a ação do Espírito Santo. Frases de efeito, empurra aqui, empurra ali, gritos estridentes e muita apelação. Já presenciei, muitas vezes, a ação do Espírito Santo entre nós. Num culto genuinamente pentecostal e não histérico, é comum ela acontecer como aconteceu no dia de Pentecostes: “De repente…” (At 2.2). De modo inesperado mas profundamente desejado, o Espírito Santo age, fala, distribui dons e enche os crentes. E como é bom que seja assim, pois cria em nós aquela sensação maravilhosa de que o que está acontecendo não é obra do homem, mas de Deus. Isto é culto pentecostal de fato!
Confesso que vi a religiosidade tomar o lugar da santificação bíblica entre nós. Muita religiosidade tem marcado nossa trajetória, infelizmente. E por “religiosidade” aqui não me refiro àquela espiritualidade sadia que marca o genuíno Pentecostalismo, mas sim àquelas práticas que conquanto travestidas de piedade cristã, apenas revestem um coração egoísta, interesseiro, apodrecido, que não reconhece suas próprias mazelas. Como pentecostal, tenho visto as pessoas usarem a Bíblia e Deus em nossas igrejas para legitimar seu próprio poder, sua incapacidade de “passar o cajado” a outros, de compartilhar. Em nome da ortodoxia muitos se tornam indiferentes à condição alheia e as circunstâncias difíceis que envolvem a vida das pessoas. Temos vivido de fórmulas prontas e usamos essas fórmulas para explicar os acertos e fracassos dos outros, quando na verdade a vida é um complexo de coisas, de circunstâncias e de fatos específicos para cada um de nós. Criticamos quem se divorciou porque a fórmula diz que “divorciar-se é pecado”, mas esquecemos que a Igreja, décadas atrás, “empurrou” para o casamento uma geração de jovens totalmente despreparados e imaturos em nome da santificação. Esses jovens, hoje, estão se divorciando. Criticamos os desigrejados porque a fórmula diz que “é preciso congregar”, mas sejamos sinceros: poucos ambientes hoje são tão adoecedores como o ambiente eclesial. E nós fizemos dele o que se tornou. Naturalmente, nem todos suportam esse ambiente e eu respeito sua escolha, ainda que entenda que não seja uma saída viável para o problema da Igreja. Não raro, envolver-se em atividades de uma igreja local é sinônimo de adoecimento emocional. Sei que é duro, e sei que poucos tem coragem de escrever e falar isto, mas é uma verdade.
Confesso que vi pessoas sinceras e abnegadas pela Obra de Deus definharem psicologicamente em nosso meio como resultado de manobras político-ministeriais e de interesses mesquinhos em nosso meio. Obreiros tratados como peças de um tabuleiro de xadrez, “movidos” e usados a bel-prazer de líderes que encaram a Igreja como seu patrimônio pessoal e não como o rebanho do Senhor.
Em nome da ortodoxia pentecostal, decidimos quem sobe e quem desce. Já vi muitas vezes crentes falando do Inferno com satisfação quase orgástica e diante disto, sempre me espantava com essa postura, postura semelhante à do fariseu que dizia em relação ao publicano: “Não sou como os outros homens…” (Lc 18.11). D. L. Moody, o grande evangelista do século 19, embargava a voz quando falava sobre o Inferno; nós, vibramos ao fazê-lo. Onde foi que nos perdemos? O que aconteceu conosco? O pecado alheio é motivo de conversa para pelo menos um mês, e sempre nos lembramos dos erros das pessoas, mesmo que suas qualidades e contribuições sejam muito maiores. E ainda legitimamos esta tendência nossa de realçar os erros das pessoas mais que suas qualidades, acreditando que tem que ser assim mesmo. A verdade é que agimos assim porque nos tornamos medíocres, porque colocamos os erros das pessoas acima delas mesmas e somos incapazes de perdoar e amar, embora falemos tanto sobre perdão e amor em nossas pregações.
Confesso que vi a Apologética pentecostal tornar-se mais um “cavalo de batalha” do que uma ferramenta de convencimento ao Evangelho. Talvez eu não seja mais tão fervoroso, talvez eu não seja mais tão engajado na evangelização, talvez eu precise sim testemunhar mais de Cristo às pessoas ao meu redor. Por que não pedir ao Senhor que me ajude a agir assim e agradá-lo desta forma? Todavia, estou convencido de que os rumos que nossa Apologética tomou é ainda pior do que uma possível apatia quanto à evangelização e “defesa” da fé. Nossa Apologética deixou de ser apologia (“defesa” em grego) para se tornar ataque, agressão, desrespeito à confessionalidade alheia.
Há um tempo participava de um grupo de Whatsapp e vi ali barbaridades. Cristãos tripudiando testemunhas de Jeová e adventistas, com memes e expressões de zombaria. Fiquei horrorizado. Tentei dialogar com o administrador do grupo, um conhecido “apologista” cristão no Brasil. Não demorou para que ele produzisse ataques pessoais (mesmo sem sequer me conhecer) e colocar em xeque meu cristianismo. Escrevi a ele dizendo que pensava o papel da Apologética não daquela forma que estava presenciando ali no grupo (uma Apologética que agride, que fere, que zomba), mas sim uma “Apologética gentil”, que convence pelo diálogo, pelo amor e não pelo interesse em simplesmente vencer o debate e humilhar o herege. Esse “apologista” me retrucou, em tom de zombaria, dizendo que esperava que meu método funcionasse, ao que eu respondi dizendo que eu não estava propondo nenhum novo método, apenas tentando resgatar princípios bíblicos no que diz respeito à defesa da fé. Não foi possível prosseguir com ele, dada a sua hostilidade. Coração apertado, no dia seguinte enviei uma mensagem buscando uma aproximação e minimizar o mal estar. Ele ignorou! Veja: é este tipo de “cristianismo” que se coloca diante de nós, é este tipo de “cristianismo” que marca as igrejas da região onde morei durante duas décadas, Porto de Santana (Cariacica, ES), e no Brasil inteiro. Um “cristianismo” que repele quem pensa diferente, que agride quem reflete e que coloca a doutrina como antagônica ao amor. Ortodoxia sem misericórdia. “Defesa da fé” sem resgate do outro.
No Pentecostalismo, confesso que vi as pessoas recitarem versículos e mais versículos de cor sem, contudo, conhecer efetivamente as Escrituras. E isto inclusive é usado como meio de auferir se alguém está sendo bíblico ou não. Multiplicam-se os “cabeças de Bíblia”, extingue-se a ética cristã. As pregações pentecostais tornaram-se “recheadas” de versículos e mais versículos bíblicos recitados no estilo “metralhadora”, mas cada vez mais desprovidas de sentido, de coerência e de progressão. O interesse pela Bíblia é mais para legitimar o que será dito por parte do pregador do que para orientar a pregação. É um contrassenso…
Não podemos negar que o Movimento Pentecostal provocou em milhões de pessoas o interesse pela leitura da Bíblia, fenômeno estudado pela Academia, mas em nosso meio, infelizmente, multiplicaram-se os “doutores em Teologia” na mesma proporção em que o “analfabetismo bíblico” cresceu vertiginosamente. Convivemos com gente que compra certificados na internet e enche o peito para dizer que sabe muito, e com isso depreciam a Teologia e banalizam a formação teológica. Não participam de programas sérios de Teologia, mas buscam os caminhos mais fáceis em sua tosca obsessão por um “diploma” de Teologia, e não pelo conhecimento teológico propriamente dito.
Confesso que vários dos problemas que aqui alisto, existentes no seio do Pentecostalismo, não são de agora, mas ainda assim não consigo deixar de pensar no Pentecostalismo em termos de um antes e um depois. Isto porque eu mesmo vivi um Pentecostalismo simples, puro, sincero, marcado por lágrimas, alteridade, amor ao outro e senso de serviço a Cristo. Confesso que continuo crendo que este tipo de Pentecostalismo continuo vivo, ainda que fluindo como água em meio a duras rochas no solo da institucionalização que oprime, que afasta, que nos distancia do Evangelho. Com efeito, temos homens e mulheres de Deus, sinceros, que amam a Deus e a Sua Igreja e se esforçam por ela. Gente que não é santa, mas pecadores em santificação. Gente que prossegue mesmo com pouca força e é capaz de abraçar o desviado, o homossexual, quem adulterou, o assassino, o herege e qualquer outra pessoa e lhe mostrar o amor de Cristo que existe em si mesma.
Confesso que continuo sendo pentecostal, mas a vivência cotidiana, os sofrimentos pelos quais passei no ministério cristão e a leitura constante do Evangelho me levaram sim a uma reformulação, revisão e abertura quanto a dogmas e práticas, sem, necessariamente, deixar de ser ortodoxo, bíblico e pentecostal. Nossa crença é um conjunto de convicções, que em grande medida nos foram legadas de modo pronto e fechado, como um pacote entregue que simplesmente acolhemos em nossos braços. Mas nem sempre essas fórmulas se mostram eficazes, praticáveis e ainda, cristãs. No discurso caem muito bem, na vida real muitas vezes são impraticáveis. E o pior: essas fórmulas muitas vezes são eclesiais, não bíblicas. Ajustamos a Bíblia ao que nós mesmos cremos e afirmamos. E isto tem dado lugar a muita incompreensão e até mesmo intolerância com aqueles que não se encaixam nesses rótulos eclesiais. Assim, prossigo ponderando sobre várias questões que perfazem nossa cosmovisão pentecostal. Para mim, o pecado continua sendo pecado, mas lido com o fato de que somos – todos sem exceção – pecadores. Entendo que nossa ortodoxia deve ser regida pela graça de Deus e que o juízo divino é sim real, mas me furto desse Deus tirano e cruel que só está na boca daqueles que se consideram mais santos que os outros. Prossigo crendo sim que a Bíblia é suficiente, mas não exaustiva. Por isto mesmo Deus nos deu a razão e o bom senso como ferramentas auxiliares para entender o mundo que nos envolve e cumprir nossa missão que se resume na fala de alguém: “A Igreja não é um museu de santos, mas um hospital para pecadores”.

Roney Cozzer
Site Teologia e Discernimento

Coleções que desejo montar…

Antonio Gilberto (certamente, obras póstumas virão).

Alister McGrath, um “monstro”.

Sören Kierkegardo “melancólico dinamarquês”.

C. S. Lewis, o inesquecível filósofo cristão.

Paul Ricoeur (é impossível, eu sei… mas me deixe iludido…).

Myer Pearlman, o inesquecível teólogo pentecostal.

Justo González, historiador da Igreja.

Carlos Mesters, grande pesquisador da Leitura Popular da Bíblia no Brasil.

 

SÍNDROMES QUE ATINGIRAM EM CHEIO A IGREJA BRASILEIRA

Teologia & Discernimento

Vírus

“Síndrome” é um termo bem recorrente na Medicina e que acabou se popularizando na sociedade. Uma síndrome é um conjunto de sintomas que caracterizam uma doença, que definem uma determinada patologia ou condição. Em outras palavras, uma síndrome é identificada pelos males físicos e até psicológicos que causam a um indivíduo ou indivíduos. Aliás, o termo é também muito usado na Psicologia. Outra característica das síndromes é que elas atingem sempre a um grande número de pessoas. Aliás, é interessante considerar que o significado etimológico da palavra “síndrome”, oriunda do grego syndromos, é “correr junto”. Tomo aqui emprestada a ideia de síndrome para discorrer sobre alguns males que nos atingiram em cheio, como Igreja de Cristo, em nossa querida nação brasileira. Usarei a palavra síndrome de forma metafórica para comentar alguns desafios que se colocam diante da Igreja Brasileira. Já de partida, deixo claro que minha proposta não…

Ver o post original 3.074 mais palavras

A condição da classe pastoral no Brasil

A MULTIPLICAÇÃO DE CONVENÇÕES ASSEMBLEIANAS E O OCASO DA NOSSA DENOMINAÇÃO

Fui surpreendido recentemente com a notícia de que um pastor, ex-presidente de uma das maiores convenções assembleianas do Brasil, após perder a eleição para continuar na presidência, decidiu criar outra convenção no estado do Espírito Santo. Recentemente, ocorreu também uma grande divisão no órgão maior da denominação, a CGADB, donde surgiu a recém criada CADB, esta liderada pelo Pr. Samuel Câmara.

Não podemos negar que a Assembleia de Deus cresceu vertiginosamente e perguntamos até se seria possível manter todo esse grupo coeso, como uma igreja só, à exemplo da Igreja Presbiteriana, ou a Adventista (ainda que mesmo dessas denominações surgiram também divisões). Com efeito, o gigantismo tem seus preços. Certamente, é um assunto complexo e amplo. Devemos, inclusive, ter cuidado para não abordar a questão de forma reducionista.

Particularmente, não nego que haja prós e contras. Admito (e percebo até que isso é histórico) que dessas divisões advieram benefícios, como o crescimento da denominação e decentralização do poder, por exemplo. Todavia, um fato é altamente preocupante: não estaria nossa querida Assembleia de Deus fragmentando-se excessivamente? Não teríamos chegado à um ponto de banalização dessa questão? Necessitamos mesmo de tantas e tantas convenções?

Tantas convenções gerais e estaduais e tanto por fazer! Considere, por exemplo, o fato de que ainda não temos uma universidade assembleiana e mesmo uma faculdade assembleiana de expressão no Brasil. O sistema de ensino e de comunicação adventista, é de encher os olhos. A Mackenzie, cuja mantenedora é a Igreja Presbiteriana do Brasil, é a maior universidade privada da América Latina com mais de 40 mil alunos e três mil funcionários. Essas denominações, embora muito… mas muito menores que a Assembleia em termos numéricos, tem feito muito mais que nós neste aspecto. E quem pode negar isto? E do jeito que as coisas vão, devemos continuar longe de alcançar o que essas denominações tem feito. Espero, claro, que meu prognóstico esteja errado, embora as evidências mostrem o contrário. Fato é, que, temos recursos para isso. Podemos fazer isso e muito mais.

Diante do exposto, cumpre perguntar: estamos presenciando o ocaso da Assembleia de Deus? Uma igreja cada vez mais dividida, com “N” convenções, algumas inclusive que rivalizam entre si, parecem contribuir mais para o fim da Assembleia de Deus como a conhecemos anos atrás, formando uma denominação híbrida, cujos líderes detestam-se cada vez mais, rivalizando entre si quando deveriam, na verdade, unir-se em prol de uma causa comum. Claro, não estou falando de algo que ocorrerá em um ou dois anos, visto que se trata de um processo também sociológico, e processos sociológicos demandam décadas. Assim, fico pensando: não estaríamos hoje construindo o fim de nossa igreja? Não estaríamos, em nome de interesses pessoais e egoístas, levantando aos poucos a estrutura que não se susterá e cairá, inevitavelmente? Que Deus tenha misericórdia de nós, e que continuemos lutando pela unidade de nossa denominação.

Roney Cozzer

ADAUTO LOURENÇO, CRIACIONISMO E QUE FIQUE CLARO: NÃO É ATAQUE PESSOAL, É DISCORDÂNCIA DE OPINIÕES…

Já ouvi muitas vezes o professor e físico, que é cristão, Adauto Lourenço, e me encantava com as propostas apresentadas por ele no afã de legitimar o Criacionismo. Naturalmente, concordo com ele em muitas ideias, noutras simplesmente me abstenho de criar uma opinião, qualquer que seja, pelo fato de não conhecer aquele determinado assunto que ele está abordando (exemplo: Física). Mas em linhas gerais, hoje, tenho verdadeiro pavor do que ele fala. Quando o ouço, me lembro do que vem acontecendo no campo da Escatologia Bíblica: pessoas forçando determinadas informações disponíveis para dar uma “ajudazinha” à Bíblia e a Deus (como se precisassem…). Esses dias minha esposa recebeu um áudio no WhatsApp e quando ela abriu para que eu ouvisse, quase tive uma convulsão: O áudio afirmava que Jesus estava para voltar porque o sobrenome “Trump” significa “Trombeta”… Meu Pai celeste Jesus Cristo Maria José!… Para ser mais sincero, algumas ideias que ele, Adauto Lourenço (e outros criacionistas) apresenta chegam a ser um absurdo para mim. Não no que tange à sua área de formação e atuação: Física. Nem tenho condições de julgar isso. Creio que ele tropeça quando tenta explicar passagens da Bíblia à luz da Física contemporânea. Nossa! Aquela de defender a Trindade baseando-se na tríplice estrutura de alguns elementos da natureza (átomos, etc.) foi de doer… E justificar textos como o de Jó 26.7 baseado em observação astronômica recente também foi no fígado. Meu parecer é que isso não ajuda. Gosto do Criacionismo, mas não desse tipo de Criacionismo. Ouço alguns defensores do Design Inteligente (que tem uma diferença importante em relação ao Criacionismo), como Marcos Eberlin, e considero (ele, por exemplo), muito mais equilibrado em suas abordagens. A incoerência de alguns criacionistas é tão grande que eles usam a mesma ciência que tanto criticam para confirmar a Bíblia. Reconhecem que a ciência é mutável em suas convicções (e usam esta informação), e ao mesmo tempo recorrem à determinadas descobertas científicas (algumas recentes) para confirmar a Bíblia. Eu, particularmente, fico horrorizado com tal prática. Prefiro a Bíblia pela Bíblia! Entendo que a Escritura é suficiente em termos de fé e prática. Defendo a perspicuidade bíblica (sua clareza) e não tenho a menor dúvida de que várias palavras que fazem parte da terminologia atual da Ciência, bem como diversos conceitos, sequer passaram pela cabeça dos autores bíblicos. Tentar explicar passagens da Bíblia à luz desses termos e conceitos atuais da Ciência (como faz Lourenço) é um absurdo em termos exegéticos. Como uso o Método Histórico-Gramatical, entendo que os autores bíblicos utilizaram as palavras da Bíblia, em sua época, com seus respectivos sentidos comuns tal como eram compreendidos pelos seus leitores imediatos. Minha compreensão é que a Bíblia é livro teológico, religioso, não científico; a preocupação dela é ser uma revelação de Deus à humanidade e à esta finalidade ela atende perfeitamente. Esses “preciosismos” que, na verdade, por vezes, são arranjos feitos por Criacionistas são, a meu ver, extremamente falíveis e podem dar lugar à confusão. É tipo aquela velha discussão em torno dos dias das criação: foram ou não dias de 24 horas literais? Para mim, não foi a intenção primária de Moisés afirmar se eram ou não dias literais, ou longas eras; isto nem está em foco em Gênesis 1! O objetivo deste capítulo é teológico: mostrar que o Universo e tudo o mais tem origem em Deus. Ele é o Criador. Agora, como se deu esse processo de criação é algo que não sabemos com toda exatidão. Não interessou a Deus revelar isto a nós e eu me prostro reverentemente ante Sua decisão neste aspecto. Para mim basta saber que Ele criou tudo. O fato é que não temos todas as respostas e precisamos aceitar este fato. Assim, penso que ganharíamos muito mais se observássemos as evidências sim, e isto é maravilhoso (constantes antrópicas, etc.), mas respeitando-se os limites da Bíblia e da Ciência e ainda, tendo claro que a Bíblia é Palavra de Deus e não precisa de “ajudinhas” para ser verdadeira em suas afirmações.

Mais uma vez: não é ataque pessoal, é um posicionamento de cunho particular. Professor Adauto Lourenço parece ser um cristão verdadeiro, mas não aprecio mais a maneira como ele relaciona Ciência e Bíblia. Não só ele, mas outros criacionistas também.

Roney Cozzer

Follow Teologia & Discernimento on WordPress.com

Blogs que sigo

Teologia & Discernimento

Um site destinado a compartilhar conteúdo cristão!

CETAPES - CENTRO TEOLÓGICO E PSICANALÍTICO

CETAPES - RECONHECIDA E REFERENDADA PELA SOPES

Isso é Grego!

Grego Koinê para todos!