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Igreja e o Tempo em que Vivemos

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Para Pensarmos

"De modo diferente de muitos evangelistas modernos, que tem enriquecido, Moody era homem simples e honesto no tocante ao dinheiro, como em tudo o mais. Não aceitava lucros. Todos os proventos das vendas do hinário de sua autoria e de Ira D. Sankey eram administrados por uma junta de encarregados e eram destinados principalmente para o sustento das escolas de Northfield. Aproximando-se o tempo de sua morte, Moody era homem relativamente pobre. Ele declarou: 'Minha esposa e meus filhos simplesmente terão de confiar no mesmo Deus em que tenho confiado'". R. N. Champlin. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. vol. 4: Candeia, 1991. p. 355.

A Igreja e o Tempo em que Vivemos

Roney Ricardo (do livro Educação Cristã na Pós Modernidade. Alex Belmonte e Roney Ricardo, 2014).

Várias ações[1] de nosso tempo são muito latentes, estão em franco desenvolvimento, mas por vezes não nos damos conta de que somos influenciados por essas ações. Essas ações sociais caracterizam a nossa época. Ainda que de maneira sintética, um dos propósitos desse livro é considerar a problemática oferecida por essas ações e de que maneira elas influenciam a Igreja e mormente, como anda a Educação Cristã nesse contexto. A priori, consideremos outras características que delineiam nossa era e depois consideraremos com elas influenciam a Igreja e a Educação Cristã.

O individualismo é outra dessas marcas de nosso século. Importante aqui é não confundir individualismo com individualidade. Esta última é o conjunto das características distintivas individuais de cada pessoa. Seu bojo intelectual, opiniões, cosmovisão, etc. A individualidade não pressupõe isolamento social ou afastamento do outro; pelo contrário, ela é formada a partir do outro. De fato, muito de nossa individualidade desenvolve-se a partir do outro. O psiquiatra e pesquisador da área de psicologia, Augusto Cury, esclarece a diferença entre individualidade e individualismo; para ele,

Há uma grande diferença entre o individualismo e a individualidade. O individualismo é uma característica doentia da personalidade, ancorada na incapacidade de aprender com os outros, na carência de solidariedade, no desejo de atender em primeiro, segundo e terceiro lugar aos próprios interesses. Em último lugar ficam as necessidades dos outros.

A individualidade, por sua vez, é ancorada na segurança, na determinação, na capacidade de escolha. É, portanto, uma característica muito saudável da personalidade. Infelizmente, desenvolvemos frequentemente o individualismo, e não a individualidade[2].

Nossa sociedade torna-se cada vez mais individualista, onde as pessoas, em função de seus interesses pessoais e em detrimento do prejuízo alheio, fazem qualquer coisa para cumprir seus desejos e interesses egoístas. Percebemos que estas características da pós modernidade, que estamos alistando aqui, estão entrelaçadas e se provocam e estimulam mutuamente. Por exemplo, esse individualismo tão agressivo com o qual convivemos hoje abre franco caminho para o enfraquecimento das relações humanas. O casamento, por exemplo, é uma relação que só pode perdurar se houver altruísmo, e não individualismo. Como dividir a vida como uma pessoa que só pensa no próprio umbigo? O evangelho como revelado na Bíblia vai totalmente na contramão da sociedade pós moderna individualista. Vemos isso nas próprias declarações de Jesus, no que concerne à vida cristã. Comentando sobre as evidências que temos para crer que o Novo Testamento está dizendo a verdade, Geisler e Turek chamam a nossa atenção para o fato de que os princípios do evangelho exarados por Jesus são difíceis de serem seguidos:

Se os autores do NT[3] estavam inventando uma história, certamente não inventaram uma história que tenha tornado a vida mais fácil para eles. Esse Jesus tinha alguns padrões bastante exigentes. O Sermão do Monte, por exemplo, não parece ser uma invenção humana…

Todos esses mandamentos são difíceis ou impossíveis de serem cumpridos pelos seres humanos e parecem ir na direção contrária dos melhores interesses dos homens que os escreveram. Certamente são contrários aos desejos de muitos hoje que desejam uma religião de espiritualidade sem exigências morais. Considere as extremas e indesejáveis implicações desses mandamentos[4].

É interessante notar que nossa sociedade, ao longo dos anos, vem criando mecanismos que favorecem esse individualismo e, como afirmado logo atrás, estamos envolvidos nesse processo, mas não nos damos conta disso, muitas vezes. Por exemplo, os meios de entretenimento e lazer hoje, direcionados a crianças, favorecem o egoísmo e a falta de solidariedade com o semelhante. Numa era marcada pela presença da tecnologia em todos os setores da realidade humana, o entretenimento e lazer não poderia ter ficado de fora. As crianças e adolescentes de hoje até riem quando mencionamos as “brincadeiras do passado” (não tão “passado” assim!) como os jogos com bolinhas de gude, os “piques”, enfim, várias brincadeiras que envolviam a interação e integração entre as crianças e que promoviam a convivência entre elas, hoje, ficaram para trás. Nossas crianças ficam horas a fio na frente de um PC[5], de um vídeo-game, ou de um tablet, jogando, jogando e jogando. Essa exposição excessiva além de causar uma série de problemas de saúde a longo prazo[6], acaba por “gerar” crianças com dificuldade de comunicação, de aprendizagem, de relacionamento-compartilhamento e de convivência social. Parece que como nunca antes verificamos uma incidência tão grande de doenças psicossomáticas e psicológicas em crianças e adolescentes, o que nos assusta, por serem doenças mais verificáveis em adultos.

Mas a pós modernidade é também a “era do espetáculo”[7], ou porque não dizer, “a era do status”, “da aparência” ou do “manter as aparências”. É a era onde as pessoas compram não porque precisam desse ou daquele produto, mas porque querem estar incluídas num grupo ou segmento social. Desse modo, “o ser” não é tão importante, mas sim “o ter”. As pessoas são valoradas pelo que tem e nem tanto pelas qualidades de sua conduta e caráter. Atrelado à isso vem o culto à personalidade, onde indivíduos são ovacionados pelo talento que possuem, ou por sua estética atraente. Isso atingiu em cheio a igreja evangélica no Brasil! Presenciamos em nossos eventos a glamourização do culto e de pessoas[8]. Com isso, nossa visão do Cristo ressurreto fica embaçada! As Escrituras, todavia, continuam a lembrar-nos: “… livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé” (Hb 12.1,2 na Nova Versão Internacional).

Nosso tempo também presencia a redução da privacidade. Cada vez mais… Ou melhor, cada vez menos (!) as pessoas mantêm-se em estado de privacidade. A exposição é perseguida pelas pessoas e com isso cultua-se a própria imagem. Os recursos de comunicação avançados, as plataformas virtuais de relacionamento, a mídia televisiva, etc., vêm sistematicamente favorecendo essa prática. Vivemos no tempo das selfs, das “curtidas”, das “postagens”, etc. O paradoxal é que ao mesmo tempo em que isso promove visibilidade coletiva, acaba favorecendo o individualismo e tem sido fonte geradora de problemas relacionados ao ego e a individualidade das pessoas. Isso porque essa exposição é muitas vezes irrefreável, desnecessária e chega até a ser humilhante em muitos casos. Nosso tempo também tem a estética como uma deusa. A beleza exterior é condição sine qua non para uma inserção social. Uma vez que eu não atenda aos parâmetros dessa “ditadura da beleza”, sinto-me frustrado. Assim, eu não me sinto incluído num determinado grupo social ou sou preterido porque meu bíceps braquial não atende o padrão de qualidade atual que se exige da figura masculina. A forma é cultuada, a imagem é supervalorizada, mas a individualidade e a estima de qualidades mais essenciais à vida são esfaceladas!

Nossa era é também a era do hedonismo, onde as pessoas buscam o prazer pelo prazer e o prazer a todo custo. Saltam de cama em cama, de jogo em jogo, de vícios em vícios. Não há limites estabelecidos quando a questão é satisfação. E nessa busca pelo prazer a todo custo, sentimentos, valores e importâncias alheias são pisoteadas, pois afinal o que importa é o prazer! O interessante é que as pessoas procuram legitimar sua conduta mesmo que ela seja imoral, como que tentando compensar psicologicamente a irregularidade da situação. É como se elas tentassem convencer a si mesmas de que estão agindo bem enquanto agem errado. Assim, por exemplo, para muitos, trair o cônjuge chega a ser uma necessidade e desse modo, justificável! Todavia, na prática, as coisas não são tão símplices assim. As conseqüências vem. Consideraremos algumas delas logo adiante.

1.4. O Resultado disso tudo?

 

Os efeitos ou resultados dessas condutas sociais e individuais que dão forma à pós modernidade estão causando um tremendo impacto negativo à vida coletiva, familiar, psicológica e emocional das pessoas. A educação cristã, como propagadora de valores eternos, sente maior resistência nessa era de existencialismo, hedonismo, individualismo e tantos outros “ismos” nocivos. É assustador pensar no quanto as relações humanas estão se fragmentando. O número de divórcios cresce, a dependência química atinge à todas as classes sociais e a depressão ganha o status de ser a doença do nosso século. A relação pais e filhos é afetada pela culpabilidade paterna e materna, onde os pais, sentindo-se culpáveis pela ausência, tentam compensar essa ausência com presentes e não com presença. Já não temos mais amigos, temos “contatos”. As relações humanas são utilitárias e isso chegou aos nossos púlpitos no que tange ao relacionamento com Deus. Nessa sociedade do espetáculo, se produz pessoas que incorporam em seu cotidiano a substituição do real ou da realidade pelo espetáculo. Não pense o leitor ou leitora que estou sendo excessivamente pessimista, ou mesmo que meu interesse maior aqui seja apenas indicar problemas sobre problemas, mas um dos passos mais importantes para se tratar uma doença é identificá-la. Como Igreja de Cristo, devemos trabalhar para que muitas pessoas “dêem a meia volta” nesse caminho turbulento. Nesse sentido, precisamos estar dispostos a sermos antiquados, retrógrados e “fundamentalistas”, pois numa era em que a identidade está se perdendo, ter uma identidade que seja contrastante com a onda do momento, é desafiador.

 

1.5. A Igreja no Contexto da Pós Modernidade

 

No século 20 e agora também no 21, tem havido um interesse muito grande do Ocidente pelas religiões e filosofias religiosas orientais. De fato, nunca ouvimos falar tanto de religiões orientais “do lado de cá do Atlântico”. Estamos contemplando uma “orientalização” do Ocidente[9], guardando-se as devidas proporções, é claro[10]. E isso se percebe em maior ou menor grau até mesmo em nossas igrejas. Algumas denominações vêm adotando, por exemplo, práticas judaicas, como a inserção de objetos e práticas do judaísmo em suas liturgias de culto. Há igrejas ditas evangélicas que estão tocando Shofar e carregando réplicas da arca da aliança, além de pronunciarem nomes e termos bíblicos em hebraico e usar adornos e outros objetos típicos da cultura hebraica, tudo isso como condição para o culto. Fica claro, porém, à luz do Novo Testamento, que o evangelho é supra cultural e dispensa todo esse simbolismo e uso de objetos no culto, que são pertenças do judaísmo.

É perceptível que estamos convivendo na pós modernidade com uma igreja evangélica que nutre uma religiosidade mesclada com práticas opostas à verdadeira espiritualidade exarada no Novo Testamento. Presenciamos as campanhas mais estranhamente possíveis, como campanha do sabão ungido, da rosa ungida, do manto sagrado, do sal grosso… e a lista prossegue. As Teologias da Prosperidade e da Confissão Positiva vêm gerando uma multidão de crentes interesseiros, egoístas, materialistas e superficiais. Produz-se uma espécie de “evangelho empreendedor”. Com isso, essas multidões são levadas a interessar-se mais pelas bênçãos do que pelo Abençoador, mais pela Terra do que pelo Céu, almejam o Éden mas repudiam o Getsêmani, querem sentar-se no trono mas esquecem a cruz! A Igreja também vem sendo atingida por essa mutação constante que ocorre em nossa era e tal como é difícil definir a pós modernidade, também vem ficando cada vez mais difícil definir a igreja evangélica, tão mesclada, descaracterizada e fragilizada. É tempo de nos posicionar. A educação cristã é uma arma poderosa nessa peleja. Lutar contra o espírito de nosso tempo não é tarefa fácil, mas contamos com o auxílio do Senhor, que prometeu estar conosco (Mt 28.20). A igreja evangélica também vem sendo atingida pelo mal da degradação moral que é característica de nosso tempo. Quantas e quantas vezes assistimos, perplexos, líderes cristãos flagrados nos mais terríveis pecados morais, envolvidos com toda sorte de práticas reprováveis para um líder cristão. A “era do espetáculo” também invadiu nossos cultos e se verifica em várias denominações um “culto à personalidade”, manifesto de várias formas e alimentado por essas “personalidades”: distribuição de suor, auto-glorificação, exposição excessiva nos meios midiáticos de suas faces[11] entre outras condutas que demonstram isso. Convivemos com uma geração de crentes que vão ao culto porque cantora tal ou cantor tal estarão cantando, ou porque “fulano” estará pregando, e não exatamente porque Cristo estará presente e será por nós adorado. Inverteu-se o foco do culto e com isso, o culto vem deixando de ser culto! Culto cristão não é mero encontro social, nem espaço para autopromoção, mas antes, é um serviço prestado à Deus, é uma reunião em torno da Pessoa Divina a fim de adorar-lhe, servi-lhe, exaltar-lhe. Outro grande desafio para a igreja é a presença cada vez mais forte de uma mentalidade puramente racionalista. Nossa era é também chamada de pós-metafísica, dando forte ênfase na razão, nas coisas “verificáveis”, objetivas. Particularmente, creio que a Teologia Liberal é uma espécie de excessiva racionalização da teologia[12].

A teologia modernista, liberalista e especulativa está permeando o mundo. Que, à semelhança de Pedro, coloquemo-nos de pé e, pelo poder do Espírito, respondamos às suas críticas infundadas, pregando o evangelho. Qual foi, então, a resposta de Pedro? Ele disse: “isto é o que foi dito pelo profeta Joel”. Observemos que a primeira pregação da Igreja foi pura exposição da Palavra de Deus (At 1.16-36).

Nossos ministério e congregação experimentam um abundante e poderoso ministério da Palavra? E a pregação e o ensino pentecostal devem ter “endereço” certo: o coração do ouvinte – “E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração” (At 2.37).

Há atualmente um esvaziamento da Palavra de Deus no púlpito de inúmeras igrejas. O tempo que deveria ser da Palavra do Senhor é ocupado por música e canto profissionais – não o genuíno louvor – e atividades sociais, restando alguns minutos para a pregação da Palavra de Deus. Daí o elevado número de “retardados espirituais” nessas igrejas. Como está a sua igreja, em particular?[13]

A nossa base pressuposicional é diametralmente oposta à base pressuposicional dos liberais em relação à Bíblia: para nós, ela é a Palavra de Deus, para eles, esse conceito é questionável.

[1] Por “ação” refiro-me à fenômenos sociais, que se constituem de ideologias, conceitos, procedimentos e posturas.

[2] CURY, Augusto. Nunca desista de seus sonhos. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

[3] Sigla para Novo Testamento (grifo meu).

[4] GEISLER, Norman; TUREK, Frank. Não tenho fé suficiente para ser ateu. Vida, 2ª imp.

[5] Personal Computer.

[6] Pesquisadores do assunto indicam que essa exposição excessiva pode causar discalculia, disgrafia, obesidade e puberdade precoce.

[7] Essa expressão, “Era do Espetáculo”, pegamos emprestada da fala da Psicóloga e Psicanalista Eugenia Caldeira, em palestra ministrada no 2º Seminário promovido pela SOPES (Sociedade Psicanalítica do Espírito Santo), quando ela discorreu sobre a relação das doenças psicossomáticas com a pós modernidade. Sua palestra foi proferida na noite de 19 de Setembro de 2014.

[8] Veja Apêndice 2 para uma reflexão a respeito da questão da simplicidade do culto protestante.

[9] Assim também como se percebe uma “ocidentalização” do Oriente.

[10] A referência aqui é à absorção de muitos conceitos, práticas e paradigmas do Oriente pelo Ocidente. Um exemplo é a presença hoje, marcante, da Cabala no Brasil, uma seita de origem judaica, além de outras em franca expansão. É claro que essa absorção se dá também em termos de cultura.

[11] Repare o leitor (ou leitora) que muitos programas evangélicos (evangélicos?) veiculados na TV brasileira hoje são, na verdade, uma veiculação da imagem de personalidades evangélicas, e não a veiculação da própria mensagem do evangelho. É comum, nesses casos, atrelar-se tudo ao fundador da denominação ou ao apresentador mantenedor do programa: produtos, eventos, as mensagens transmitidas, etc. Tudo ou boa parte da programação gira em torno dessa pessoa e não da mensagem do evangelho. De fato, um comércio (lucrativo, diga-se de passagem).

[12] faço questão de escrever “excessiva racionalização”, pois está claro para mim que a Bíblia e o evangelho são coerentes com a razão, o que não me impede de reconhecer, todavia, que muitas verdades bíblicas não são totalmente “dissecadas” pela razão; a razão não é capaz porque essas verdades estão acima da razão, sendo portanto, inatingíveis nesse sentido. Nas palavras de Francis Schaeffer, o fato de Deus ter-se revelado suficientemente não significa que Ele se revelou exaustivamente. Para mim, até mesmo a complexidade desse assunto é coerente com a revelação bíblica: ela não poderia mesmo caber em nossa caixa intelectual!

[13] GILBERTO, Antonio. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de Janeiro, 2008: CPAD. p. 185.

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