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Bíblias de Estudo, precisamos de mais?

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"De modo diferente de muitos evangelistas modernos, que tem enriquecido, Moody era homem simples e honesto no tocante ao dinheiro, como em tudo o mais. Não aceitava lucros. Todos os proventos das vendas do hinário de sua autoria e de Ira D. Sankey eram administrados por uma junta de encarregados e eram destinados principalmente para o sustento das escolas de Northfield. Aproximando-se o tempo de sua morte, Moody era homem relativamente pobre. Ele declarou: 'Minha esposa e meus filhos simplesmente terão de confiar no mesmo Deus em que tenho confiado'". R. N. Champlin. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. vol. 4: Candeia, 1991. p. 355.

Bíblias de estudo

Bíblias de Estudo, precisamos de mais?

Por Roney Ricardo

Foi com muita alegria que pude ter um de meus “rascunhos” prefaciados por aquele que considero ser não apenas um pregador, mas um pregador-teólogo comprometido com a verdade do evangelho, Pr. Hernandes Dias Lopes. Suas palavras naquele prefácio foram marcantes: “Hoje o Brasil é o país que mais imprime bíblias no mundo, mas ainda temos uma geração de analfabetos da Bíblia. Poucas igrejas têm um compromisso sólido com o ensino das Escrituras”. De fato, convivemos com uma negligência enorme no que tange ao ensino sistemático das Escrituras e sua promoção pela liderança das nossas igrejas. Nosso povo também é muito desinteressado de aprender a Palavra de Deus e de cultivar uma vida de devoção profunda (sem generalizações, é claro). Não é preciso uma pesquisa envolvendo muitas pessoas para se averiguar isso. Nossos cultos de ensino bíblico e de oração em geral ficam sempre vazios. Como alguém que vem dando palestras em igrejas e promovendo cursos bíblicos e teológicos, vejo isso com meus próprios olhos. E nem sempre a razão desse esvaziamento se dá porque o palestrante ou o professor é desqualificado. A realidade é que há mesmo um desinteresse, tanto por parte do povo como por parte da liderança de nossas igrejas (sem generalizações, é claro!).

Por mais de uma vez já me perguntaram, em palestras minhas sobre Bíblia e tradução bíblica, se precisamos mesmo de mais Bíblias de Estudo e se isso na verdade não é resultado de um mercado que se instalou na Igreja evangélica Brasileira. A minha resposta para essas duas perguntas é sempre um “Sim”, para as duas: sim, precisamos de mais Bíblias e sim, um mercado se instalou! Pode parecer contraditória minha resposta, mas estou convencido de que ela representa a realidade em torno dessas questões. De fato, muitas Bíblias de Estudo já foram escritas, e elas cumprem o seu papel no sentido de promover o conhecimento das Escrituras, sua melhor compreensão, o conhecimento dos contextos que envolveram a produção do texto bíblico, enfim. E diga-se ainda que várias dessas Bíblias foram produzidas por estudiosos sérios, de vasta cultura bíblica, de erudição teológica, comprometidos com a difusão da Palavra. Sem querer cometer injustiças e fugindo de qualquer parcialidade, e ainda, reconhecendo o valor desses homens a despeito de discordâncias teológicas, cito alguns nomes como Russell Shedd, Donald Stamps, Antonio Gilberto, Cyrus Ingerson Scofield, Luiz Sayão, Roland de Vaux, entre tantos outros, é claro. Sua contribuição nesse sentido é inegável! O próprio Donald Stamps, dias antes de morrer, deixou-nos este testemunho, registrado na conhecida Bíblia de Estudo Pentecostal: “A visão, chamada e sentimento de urgência que tive da parte de Deus para preparar esta Bíblia de Estudo ocorreram-me quando eu servia ao Senhor como missionário no Brasil. Observei que os obreiros necessitavam de uma Bíblia com estudos que os auxiliasse na orientação de seus pensamentos e nas suas pregações. Isto posto, por dez anos, a partir de 1981, comecei a escrever as notas e estudos doutrinários desta obra”[1]. As palavras acima são comoventes e ensinadoras. Uma obra que vem à tona como resposta à necessidade de um povo, de uma igreja, de seus obreiros e que demora uma década (uma década, isso mesmo!), para ser produzida, o que demonstra como o projeto foi encarado com tamanha seriedade. Nos últimos dias, grande polêmica tem havido em torno de uma Bíblia lançada com o nome de um cantor evangélico. E de fato, não era pra menos. A Bíblia leva a logomarca do cantor na capa e como ele mesmo afirma em um vídeo explicativo sobre o projeto, nela ele conta suas experiências pessoais com Deus, além de trazer fotos suas. Não quero aqui me ater a julgar suas intenções, como alguns tem feito, chegando a alegar que o produto vem numa hora em que a vendagem dos seus CDs caiu. Penso que só Deus pode julgar com total precisão essa questão. Mas algumas coisas precisam ser pensadas e criticadas em função de estarem evidentes: o referido cantor não demonstra cultura bíblica alguma em suas canções e ele alega que crê que a Bíblia, com fotos e relatos de suas experiências pessoais com Deus, possam estimular os jovens a ler mais a Bíblia. Veja as motivações para tal projeto! Precisamos mesmo de uma Bíblia que divulga experiências pessoais para estimular sua leitura? Ou precisamos de Bíblias que expliquem a própria Bíblia levando-nos a entendê-la melhor? Embora tenha um pouco de reserva quanto a livros que tenham um caráter muito pessoal, estou convencido de que seria muito mais legítimo que ele escrevesse um livro, de cunho pessoal, onde poderia trazer isso a público, se crê que essas experiências contribuirão para que os jovens leiam mais a Bíblia. Mas atrelar isso a uma Bíblia é realmente inadmissível. Considero isso uma ofensa a uma tradição (boa!) de longa data que vem sendo cultivada no sentido de produzir Bíblias de Estudos com enfoques variados. O referido cantor apela à sua popularidade, diz ser um dos mais influentes desse tempo e deseja usar isso para incentivar os jovens à leitura da Bíblia. Admito que nossa influência possa ter alguma utilidade, mas nesse caso, essa não seria essa uma motivação equivocada? Paulo expressa sua motivação em pregar o evangelho dizendo que isso era uma necessidade para ele! (cf. 1 Co 9.16), e não porque era influente. Em outras palavras, o evangelho por si, e não pelo anunciador. Fiquei mais consternado ainda ao saber que o projeto foi patrocinado pela SBB – Sociedade Bíblica do Brasil –, uma editora cujo legado maior é a difusão das Escrituras no Brasil e no mundo. Deixo claro aqui que minha crítica neste texto não ignora o que a referida editora já fez pelo Reino de Deus no que tange à difusão da Bíblia. É um erro descartarmos todo o texto em função de uma palavra errada. Mas estou convencido de que tal patrocínio, por parte da SBB, é incoerente com a sua imagem, com o seu legado e com o seu projeto maior que é “Promover a difusão da Bíblia e sua mensagem como instrumento de transformação e desenvolvimento integral do ser humano”[2]. E reconheço que ela tem, com eficácia, cumprido essa missão, para glória de Deus! Mas, porque patrocinar um projeto como esse, que leva o nome de um cantor que em suas canções não transparece cultura bíblica, não evidencia intimidade com a Bíblia e dá um viés pessoal ao projeto? Estaria nossa querida SBB perdendo de vista sua missão filantrópica e eminentemente ministerial, pelo Reino? Que Deus nos guarde! Oremos pela SBB!

Voltando à pergunta que dá título a este texto, “se precisamos de mais Bíblias de Estudo?”, respondo que SIM e que NÃO. Sim, porque precisamos sim que o povo evangélico tenha à sua disposição ferramentas de estudo sérias, produzidas por estudiosos com experiência, para aumentar sua compreensão da Palavra de Deus. E não, definitivamente não precisamos de Bíblias que sejam produzidas com vistas a divulgar experiências pessoais, afinal, experiência pessoal é pessoal: só serve a quem a teve. No máximo, podemos colher algumas lições. Não, não precisamos de Bíblias que divulguem fotos e fatos sobre a vida de fulano tal e fulana tal porque ele ou ela é influente ou é famoso. Isso não produz espiritualidade e nem profundidade de vida cristã. Isso só será gerado no cristão quando ele desenvolver uma vida de contínua comunhão com Deus por meio da oração, da leitura e estudo contínuo das Escrituras, da comunhão com a Igreja, entre outras coisas. Esse caso, recente, na verdade, não é o único. Outros projetos ridículos como esse já foram veiculados e isso só evidencia o quanto a Igreja brasileira precisa dar meia volta em direção à verdade do evangelho e viver conforme ela. Lamento profundamente que uma crise se instala em nossos dias e precisamos de fato de um reavivamento, de um retorno às Escrituras. Deus nos ajude.

Em Cristo,

Roney Ricardo.

[1] STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD, p.15.

[2] Fonte: Site da SBB. Disponível em <http://www.sbb.org.br/interna.asp?areaID=14&gt;. Acesso em 13/04/2015.

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