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Fundamentalista sim, inflexível não! Por Roney Ricardo

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Para Pensarmos

"De modo diferente de muitos evangelistas modernos, que tem enriquecido, Moody era homem simples e honesto no tocante ao dinheiro, como em tudo o mais. Não aceitava lucros. Todos os proventos das vendas do hinário de sua autoria e de Ira D. Sankey eram administrados por uma junta de encarregados e eram destinados principalmente para o sustento das escolas de Northfield. Aproximando-se o tempo de sua morte, Moody era homem relativamente pobre. Ele declarou: 'Minha esposa e meus filhos simplesmente terão de confiar no mesmo Deus em que tenho confiado'". R. N. Champlin. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. vol. 4: Candeia, 1991. p. 355.

Prezado leitor ou prezada leitora, o assunto que passo a abordar aqui é delicado e pertinente ao mesmo tempo. Estou convencido de que o que tratarei aqui precisa de fato ser ponderado por todos nós, servos e servas de Deus. Por isso me pus a escrever. Mas como minhas opiniões nos assuntos levantados são fortes, peço a você que se paute comigo pela caridade cristã e que colha o melhor das linhas que se seguem. Como crentes em Jesus, devemos buscar o equilíbrio na nossa caminhada. Todo excesso é ruim! A Bíblia nos fala de graça e conhecimento, graça e verdade, amor a Deus e ao próximo, etc. Tudo isso aponta para equilíbrio. Às vezes, excedemos muito num lado da balança, ignorando o outro. É importante ainda frisar já de partida que a palavra “fundamentalista” nesse texto, nada tem que ver com radicalismo religioso e agressão ao próximo. A palavra assumiu esse sentido ao longo dos anos, mas minha referência aqui é ao conservadorismo ou à ortodoxia teológica, que abraço. Mas não apenas e exclusivamente em questões teológicas mais profundas e complexas. Aqui, irei me referir também às questões relacionadas à práxis da Igreja. Estou falando de “fundamentos”, ou “fundamentação bíblica”. Valores bíblicos que são os alicerces (fundamentos) de uma vida com Deus. Daí o uso da palavra fundamentalista. Concordo que ela talvez até represente um pouco de radicalidade sim… Mas o evangelho o é, em muitos aspectos.

Pois bem! Vamos lá!

  1. Sou fundamentalista quando afirmo que precisamos do culto cristão, mas flexível quando afirmo que agenda de igreja é sempre muito apertada. Sim, isso mesmo! Vejo cristãos que são realmente obcecados pelos cultos de suas igrejas, a ponto de não abrirem mão de um dia sequer para um momento de laser com a família, com amigos, para realizar um curso que demande um dia na semana, etc. Isso não é vida cristã, é ativismo religioso. Recentemente, convidei uma pessoa querida, da minha família, que não vejo há um ano, para vir à minha casa e podermos passar um tempo juntos. Sua resposta: não posso, tem culto na minha igreja! Vejo pessoas que não tem tempo para a família e mesmo para Deus (sim, isso mesmo: não tem tempo para Deus). Estão tão absortas nas atividades da igreja que simplesmente abandonam sua devoção particular a Deus, pois isso é possível, sua convivência correta com a família, entre outros excessos. O que passo a dizer é de foro íntimo, você não é obrigado a concordar: eu sinto Deus na comunhão com minha esposa, no dia a dia, na comunhão sincera com amigos, irmãos em Cristo; ou como diz o hino antigo, “no olhar do meu irmão”. Será que quando cultivamos momentos assim não estamos também, de certa forma, cultuando a Deus? Martinho Lutero acreditava que o simples ordenhar de vacas pode ser feito para glória de Deus. Reafirmo a necessidade de cultuarmos a Deus. Esse hábito foi tão salutar para minha vida, para minha formação, e procuro cultivá-lo com minha família hoje. Mas é preciso lembrar que nossa devoção a Deus não pode se limitar apenas ao momento do culto. Ela precisa extrapolar esse limites sem independer deles, é claro.
  2. Sou fundamentalista quando afirmo que não há salvação além de Cristo, mas flexível quando reconheço que há salvação fora dos nossos círculos confessionais. Por exemplo, quando olho a biografia de pessoas como John Wycliffe, Tomás de Aquino, Jerônimo de Savonarola, Madre Teresa de Calcutá, entre outros. Pessoas que não levantaram as mãos num templo evangélico, não se tornaram membros de uma igreja evangélica, entre outras coisas que nos caracterizam como evangélicos, hoje, mas que demonstraram em seu viver terem tido um encontro pessoal com Cristo. Digo isso nem tanto pelo que eles fizeram, mas sim porque o que fizeram só pode ser resultado de um encontro pessoal com Cristo. É muito raro eu chorar vendo um filme, mas quando assisti ao filme “Madre Teresa de Calcutá” não pude me conter. Que desprendimento! Que entrega ao próximo! Nós, evangélicos, falamos tanto de amor, mas como somos falhos nisso. Nosso amor é, muitas vezes (muitas vezes, pode acreditar!), extremamente “denominacional”. Em outras palavras, temos muita facilidade para amar e conviver com pessoas que professam exatamente a mesma confissão denominacional que a nossa, mas quando essa expectativa não é atendida, essas pessoas são excluídas de nossos círculos mais próximos. Mas verdade seja dita: como pentecostais temos muito a aprender com pessoas de outras denominações evangélicas e até com não crentes (foi isso mesmo que escrevi!).
  3. Sou fundamentalista quando afirmo que a experiência pentecostal é atual, para os nossos dias, mas flexível em reconhecer que muitas experiências ditas espirituais não levam à absolutamente nada! Vejo com frequência fotos de pessoas que “caíram no Espírito” durante pregações sendo postadas em mídias sociais, como se isso fosse uma espécie de troféu, e frases como “o poder de Deus se manifestou”, “foi fogo puro”, etc., entre outros chavões já conhecidos, são escritas. Isso evidencia, a meu ver, flagrante exibição do ego humano. Nesses momentos, me pergunto: que edificação isso traz? Para onde isso está nos levando? Querido leitor ou querida leitora, uma pergunta: quantas pessoas você conhece que realmente vieram a Cristo e NEle permanecem que de fato são frutos dessas experiências? Sou flexível para reconhecer que pode até acontecer, mas a história bíblica e a história da Igreja mostram que não é essa a regra do evangelho. O que leva de fato as pessoas a Cristo é o cultivar de uma vida com Deus, no dia a dia, todo dia, pela oração, leitura e estudo da Bíblia, evangelização, testemunho cristão, entre outras coisas. Tenho percebido que essas são experiências espirituais que só acontecem nesses locais e são pontuais. As pessoas na maioria das vezes saem desses cultos e continuam com os mesmos problemas éticos que apresentavam e não demonstram mudança de vida alguma. E pior que isso: não demonstram desejo de mudar. Avivamento que é avivamento passa pela via do arrependimento e da contrição. Nossos cultos de campanha, muitas vezes marcados por essas manifestações estranhas como o “cair no Espírito”, “aviãozinho”, entre outras, estão sempre lotados, e nossos trabalhos de ensino bíblico e oração estão vazios. Que avivamento é esse? Enquanto pentecostal, sei que é perfeitamente natural ao culto pentecostal a glorificação em voz alta (e baixa também), línguas estranhas, manifestação de dons espirituais, milagres, renovação espiritual, lágrimas, entre outras marcas que caracterizam o típico fervor pentecostal. Não nego isso! Eu gosto disso! Me identifico com o pentecostalismo. Mas tenho visto muitos excessos em nossas igrejas. Venho de um tempo em que buscar o batismo com o Espírito Santo significava para nós santificar a vida, viver em retidão. Nós o desejávamos para servirmos melhor a Deus, melhor à Igreja e ao próximo. As pessoas hoje, em nossas igrejas, estão usando os elementos espirituais como o batismo com o Espírito Santo, dons espirituais, o próprio fervor típico de nossos cultos como uma espécie de “autenticação de espiritualidade”, de forma ostentosa, exibicionista, vaidosa. Soube de um caso em que pessoas durante um culto disputavam para ver quem glorificava em voz mais alta. Temos predileção por frases ridículas e que excluem e constrangem as pessoas tais como “pentecostal que não faz barulho está com defeito de fabricação”, “profeta com voz de trovão”, “quem é pentecostal está entendendo”, entre outras. Ora, e quem não atende a esses critérios? É por isso menos espiritual? Não são de Paulo as palavras que se seguem: “… se eu for ter convosco falando em outras línguas, em que vos aproveitarei, se vos não falar por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de doutrina?” (1 Coríntios 14.6). Leia as epístolas pastorais e notará que as qualidades ali alistadas são de conduta, de caráter santo, caráter semelhante ao de Cristo. Quando Paulo pede que Marcos seja levado, o faz não porque ele atraía multidões, ou porque tinha voz de trovão, ou porque pregava e isso e aquilo acontecia, “pois me é útil para o ministério” (2 Tm 4.11). Sim, ele era útil. Só é útil quem faz, não quem aparenta. Julgamos a espiritualidade das pessoas pela quantidade de línguas que elas falam, pelo número de almas que se converteram durantes suas pregações, entre outras coisas. Nosso “evangelho” torna-se cada vez mais estranho ao evangelho de Cristo, onde Quem precisa ser anunciado de fato, é Ele.

Termino aqui no desejo de que esse texto tenha sido edificante a você e possa produzir uma reflexão que, por sua vez, possa produzir uma ação coerente com o evangelho bíblico.

Em Cristo,

Professor Roney Ricardo

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