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Eu não tenho carro, não uso fone de ouvidos e sim, estou deixando os refrigerantes!

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Para Pensarmos

"De modo diferente de muitos evangelistas modernos, que tem enriquecido, Moody era homem simples e honesto no tocante ao dinheiro, como em tudo o mais. Não aceitava lucros. Todos os proventos das vendas do hinário de sua autoria e de Ira D. Sankey eram administrados por uma junta de encarregados e eram destinados principalmente para o sustento das escolas de Northfield. Aproximando-se o tempo de sua morte, Moody era homem relativamente pobre. Ele declarou: 'Minha esposa e meus filhos simplesmente terão de confiar no mesmo Deus em que tenho confiado'". R. N. Champlin. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. vol. 4: Candeia, 1991. p. 355.

Pois é! Não tenho carro, não uso fones de ouvidos aí pelas ruas e aos poucos estou abandonando os refrigerantes. Estava assistindo há pouco um interessante documentário sobre publicidade em sua relação com crianças e ouvi um dos entrevistados dizer algo muito interessante. Ele comentava que se você for a lugares como Roma, Paris, etc., na Europa, você só perceberá que está lá se olhar para cima, porque se manter os olhos na horizontal, verá exatamente o que vê aqui no Brasil, as pessoas de lá fazendo exatamente o que as pessoas daqui fazem: mexer no celular, ouvir pelos fones de ouvido, dirigir, etc. Achei essa percepção do entrevistado fantástica. É a nossa “querida” globalização, que nos formata, padroniza, nos deixa cada vez mais no automático. Estamos tão condicionados que qualquer indivíduo que fuja um pouquinho desse condicionamento é visto, certamente, como no mínimo, estranho. Até nos perguntamos em algum momento: “Existe vida além do Facebook”, ou além do Whatsapp? Conseguimos dialogar ao invés de simplesmente falar ao celular? Será que alguém sabe o que é ficar sozinho nessa era de “contatos”?

Nossas crianças já crescem sob essa verdadeira ditadura e parece que cada vez mais nos tornamos a-críticos em relação ao mundo, à sociedade, à nós mesmos. Acríticos em relação à essa chocante realidade (aliás, não tão chocante assim para nós). Com isso, julgamos as pessoas pelo quão inseridas estão nesse padrão forjado não tão devagar assim pela pós-modernidade. Quem não atende a esses critérios, ou não se encaixa neles, certamente tem alguma coisa errada. Compramos um carro não porque precisamos, mas para nos sentir inseridos, ou para dizer: “Eu posso”, “eu tenho”. Nas palavras de Feuerbarch, “nosso tempo, sem dúvida… prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser” (citado em Debord, 2003, p. 13). Nossa era é assim é a era que supervaloriza a imagem, em detrimento do conteúdo. O ter em lugar do ser. Mas não apenas isso. Nosso tempo é marcado por uma velocidade nos processos que impressiona. As pessoas querem tudo rápido, pronto e pra ontem! As crianças cada vez mais cedo estão buscando companhias virtuais e nos perguntamos até que ponto isso é saudável para a construção da sua subjetividade.O pai, a mãe e o docente se acham perdidos diante desse desafio. Vivemos numa sociedade mutante, onde nada é perene – nem os valores (pois é, eu ainda uso essa palavra).

Assim, me impressiono e me atraio mais com o talento do que com o caráter, mais com o dom recebido do que com o fruto produzido, mais com a emoção do que com a emoção equilibrada pela razão, mais pelo que posso receber do que pelo que posso fazer pelo outro. Quem sai desse padrão, desse automático, é olhado com suspeita. Mas o interessante é pensar que a normalidade esteja justamente onde menos se espera: no anormal, ou pelo menos, naquilo que passa a ser considerado anormal por essa nossa sociedade. Assim, eu não tenho carro e não que não precise e não queira, mas é que não posso comprar e mesmo quando pude, preferi investir em prioridades mais importantes. Saiba também que eu não só não tenho carro como também não tenho seis garras nas mãos semelhantes àquelas do Wolverine, do X-Man, entre outros itens. Não uso fone de ouvido e estou largando os refrigerantes, pois assim como outros utensílios que passaram a fazer parte do nosso cotidiano, esses itens fazem mal a saúde e não é porque todo mundo usa que eu vou usar. Não vou usar só porque todo mundo usa! E claro, eu não poderia fechar essa reflexão sem contextualizá-la um pouco mais no ambiente do qual faço parte: a igreja evangélica brasileira, mais especificamente a Assembleia de Deus. Pois bem, vamos lá: não vou à vigília, só porque todo mundo vai e sei que se eu não for vão olhar pra mim com suspeita. É que geralmente na vigília se faz muita coisa, menos vigiar… Eu não vou apoiar a ideia de uma operadora telefônica evangélica mesmo que muitos assembleianos apoiem, não enquanto não tivermos uma universidade e um trabalho missionário mais forte e mais expressivo. Eu não vou desistir das pessoas, do evangelho e do perdão, mesmo que nosso mundo esteja cada vez mais frio, indiferente, cruel. Eu não vou desistir do ensino bíblico mesmo que a maioria das pessoas não tenham lá muito tempo para isso. Alguém será alcançado. Não, não vou cobrar pelo invendável só porque todo mundo está fazendo isso, mesmo que me vejam como estranho.

Pois é, é desse jeito. Eu não tenho carro, não uso fones de ouvidos e sim, estou deixando os refrigerantes. Vamos lá também?

REFERÊNCIAS

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. 2003.

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